quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Razão e Sensibilidade


Razão e Sensibilidade
“Ser ou não ser, eis a questão!”
Eu digo: - Saber é a questão!
É esse o tema do presente artigo que vai abordar um dos dois grandes capítulos da Filosofia, que é o que trata da Gnosiologia. Por um momento, deixemos a Ontologia. Para depois retomá-la em seu ramo metafísico. Assim chegamos a um ser que existe, que esse ser quer saber e quer conhecer a realidade.
Segue-se uma modesta reflexão.
Platão ou Aristóteles? Corpo ou Alma? Ciência ou Filosofia? Razão ou Experiência? Quem mais brilhantemente abordou a questão foi Immanuel Kant (1724-1804) que dedicou sua vida a desafios filosóficos. Dentre eles, estava o de estabelecer as origens do conhecimento, os limites do saber e se, realmente, somos capazes de conhecer a realidade.
A chamada Era da Modernidade inaugurada com René Descartes (1596-1650) trouxe a possibilidade de conhecer a verdade. Descartes afirmava que, para se chegar ao conhecimento verdadeiro é preciso colocar todos os nossos conhecimentos em dúvida, sob suspeita.
Ao estabelecer o processo metódico da dúvida, Descartes desconsiderou todas as percepções sensoriais, todos os conceitos formados sobre os objetos materiais. Além de duvidar da própria realidade e do teor dos pensamentos que criamos. A única coisa de que não se pode duvidar é que o pensamento existe.
Assim, o Racionalismo e Descartes nos ensinaram que o conhecimento das coisas externas deve ser obtido pelo trabalho lógico da mente com seus raciocínios.
Mas, surge outra corrente, que inclui algo novo, chegam os empiristas ingleses e dizem ao inusitado, pois até o momento não se falava na experiência sensorial.
O Empirismo, advindo dos filósofos ingleses, estabelece que, o conhecimento se dá através de nossas experiências. Para eles, podia se eliminar toda a noção de idéia inata, por ser a mesma muito imprópria e incompreensível.
Os empiristas, dessa forma, consideraram que o conhecimento provinha de nossa percepção do mundo externo ou uma análise daquilo que captamos feita pela nossa mente.
Nesse impasse, brilha a genialidade conciliatória ou crítica de Immanuel Kant (1724-1804) com suas obras. Foi a chamada Era dos Iluministas, onde reinava o esclarecimento numa atitude crítica.
Kant distanciou-se dos sistemas racionalistas, por reconhecer os limites da razão. E, mostrou que, sem a consciência desse limite, a razão se torna onisciente e onipotente, perdendo o vínculo com a liberdade e se tornando irracional.
Para Kant, o conhecimento se efetiva no instante em que as percepções e os conceitos são reunidos sob a forma de uma afirmativa ou de uma negativa, compondo um juízo. Antes desse juízo, não havia nenhuma operação determinante de raciocínio.
Os juízos chamados por ele de analíticos e sintéticos ( a priori e a posteriori) irão tanto aumentar o nosso conhecimento como esclarecer nossos conceitos.
Segundo Kant, é impossível conhecermos as coisas tais como são, ou seja, as coisas em si mesmas. O homem conhece aquilo que pode perceber das coisas.
Em suma, o conhecimento não se dá nem pelo sujeito nem pelo objeto, mas pela relação estabelecida entre essas partes. O que captamos das coisas são os fenômenos característicos das coisas que podem ser diferentes das coisas em si.
Assim, creio que a melhor forma de conciliar Racionalismo e Empirismo seria atribuindo mais importância à experiência sensível, fenomenológica, e, simultaneamente, desmistificando o poder absoluto da razão para que tenhamos um conhecimento, mesmo que limitado da realidade.
Alguns dilemas estão fadados a acompanhar o ser humano por toda a sua existência. São, deveras, enigmáticos e intangíveis para terem, unanimemente, uma abordagem única e aceitável pelos pensadores.
Ouso dizer que não deveriam ser conciliados por serem de origem contrária, mas poderiam sim ser unidos e interligados. Onde um fica obscuro, o outro esclarece. Onde um termina, o outro se inicia.
Enfim, para que a riqueza de suas proposituras sejam respeitadas e conservadas, esses dilemas só poderiam ser somados um ao outro.
Genialidades para a sua existência para tentar elucidar a questão. Com profundo respeito e admiração ao labor filosófico, resta-me conciliar as duas correntes epistemológicas entrelaçando-as e reverenciando ambas.


Salete Micchelini

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Desafios atuais de um professor



Desafios sempre fizeram parte da atividade profissional do professor. Não podemos afirmar se eles aumentaram ou diminuíram, pois o maior desafio é sempre o que temos pela frente.
Transformações e mudanças acompanham todas as realizações humanas. Assim sendo, não é apenas o profissional da Educação que as está enfrentando. Toda a sociedade, seus organismos e instituições, seguem uma corrente incessante de transformações inevitáveis e têm que se adaptar aos novos rumos. È a força do processo de evolução histórica da sociedade humana.
Cabe ao professor estar atento a realidade, ou seja, estar ligado a todos os impasses do mundo atual para saber se situar, se posicionar diante deles e visualizar um futuro melhor. O mestre Paulo Freire nos deixou dentre seus ensinamentos, a importância do comprometimento do profissional da Educação com as transformações sociais.
Diz a educadora chilena Sara López Escalona, em suas sábias palavras: “Só se a educação for um fator de mudança social positiva no aspecto humano é que será também mudança positiva no social. A mudança tem que ser procurada e iniciada no interior do homem. Somente o homem – enquanto tal – salvará o homem!”
Retorno a Paulo Freire, quando nos ensinava a reeducação de nosso olhar pedagógico. Dirigi-lo para os sujeitos humanos e para as suas condições de humanização. Reeducar nosso olhar sobre a infância, a adolescência e sobretudo, sobre nós mesmos. Enquanto reeducamos nosso olhar pelos outros, estaremos também nos reeducando.
Fica aí uma grande lição, o ser humano se forma como espécie na luta constante por sua própria humanização e conhecimento.
A volta do olhar humanizador aparece como uma saída possível para os efeitos negativos da industrialização e da globalização. Diante da fragmentação gerada pela quantidade e pela velocidade da informação, como também, da escassez de tempo para se estabelecer vínculos, é para a Educação que se renovam as esperanças de se preservar a integridade do ser humano através dos valores afetivos e solidários.
Salete Micchelini

Novos paradigmas filosóficos e científicos - Revolução Científica




No período compreendido pelos séculos XV, XVI e XVII, a Europa passou por transformações radicais. Mudaram-se as estruturas sociais, as produções artísticas, as convicções religiosas, os poderes políticos, as atividades econômicas com novas concepções filosóficas e novos saberes chamados científicos.
A expansão marítima ampliou a Cartografia existente e os horizontes terrestres. Uma nova classe social emergia e se firmava com domínio econômico.
Todo o conhecimento existente pedia um novo ordenamento, pois as verdades aceitas até então, estavam totalmente desmoralizadas ou sob suspeitas. Nas Universidades, um saber voltado para o homem veio a calhar com toda essa mudança.
Foi nesse contexto que se alteraram os paradigmas filosóficos e científicos para outros inovadores contornos.
“Foi uma época que exigia gigantes e forjou gigantes pela força do pensamento, pela paixão e caráter, pela universalidade e erudição.” (Engels).
A renovação do pensamento intelectual iniciou-se na Itália em meados do século XIV e atingiu seu apogeu no século XVI. O mundo medieval, marcado por dogmas da Igreja, apresentava a visão Teocêntrica da realidade, ou seja, tudo se explicava e se bastava em Deus. Da vontade divina tudo resultava: os fenômenos da natureza, o ordenamento social, as desigualdades de riquezas, de poder, de oportunidades, a predestinação e assim por diante.
À Igreja cabia elaborar e instituir as verdades da época como, por exemplo, quem seriam os eleitos para o reino dos Céus e quem arderia no fogo do Inferno. A Igreja também detinha o monopólio do saber acadêmico e se legitimava como a única representante e interlocutora de Deus na Terra.
Um novo olhar religioso surgiu após a Reforma. Enfraquecida, a Igreja assistiu o surgimento de novas formulações no campo teológico-filosófico, ancoradas nas mudanças político-econômicas que contribuíram para formar um novo parâmetro de conhecimento.
A Europa emergiu do Medieval e entrou no Renascimento. Foi uma transformação radical de consciência e criatividade com a retomada dos grandes nomes da cultura da Antiguidade Clássica. Restauraram-se idéias de todas as áreas do saber, que novamente foram reverenciadas.
Com a conduta pouco sagrada da Igreja cresceu a celebração do indivíduo, era o Humanismo que brotava nas universidades trazendo uma valorização do homem. O homem se volta para si mesmo como parte integrante da natureza, valorizando-se progressivamente. Podia-se assim, acreditar na capacidade humana e nas possibilidades dele intervir na realidade.
Era a visão Antropocêntrica trazendo marcas de individualismo e de racionalismo.Individualismo que advinha da libertação do homem dos dogmas sagrados e forçava-o a competir com seus semelhantes pela sobrevivência, fruto de um mercantilismo comercial. Racionalismo que estava intimamente ligado ao Individualismo, pois para competir e vencer o outro, o homem necessitava crer em si mesmo e utilizar-se de seus atributos intelectuais. Elaborando melhores estratégias, ou seja, colocando a razão como meio de se obter determinado fim.
Foi, justamente, em meio a esse contexto humanista, que aconteceram posturas antiescolásticas e antimedievais de grandes pensadores e intelectuais renascentistas. Em virtude de seus posicionamentos, de suas produções literárias e artísticas, muitos deles foram perseguidos, torturados, excomungados e mortos pela Igreja.
Mas, foi impossível deter a força criativa e filosófica dos gênios, que de forma intensa e audaciosa não se dobrou, nem abriu mão de suas idéias revolucionárias. A capacidade do homem de conhecer e explicar foi maior que a força opressora e assassina do poder.
A crítica humana vinha consistente e bem fundamentada, em relação à visão tradicional, sobretudo no que diz respeito às explicações dos fenômenos naturais e cosmológicos. Já não satisfaziam as respostas centralizadas na vontade de Deus, pois se podia observar, medir, calcular e concluir. A razão começa a abrir novos caminhos e atalhos em busca da compreensão da natureza e dos mistérios do Cosmos.
Daí, esse avanço fazer parte tanto do caráter filosófico como também do avanço científico, pois surgiu dos questionamentos filosóficos.
Houve também uma grande mudança no espaço geográfico terrestre vinda da expansão marítima e da descobertas do novo continente. Os detentores do saber perceberam que, se não conheciam bem a Terra podiam também não conhecer bem o Céu. Isso trouxe dúvidas e impôs uma atitude ainda mais crítica e científica aos sábios. Surge o Heliocentrismo, como uma visão espacial e cosmológica inovadora e passível de cálculos. O olhar para os Céus se modificou com a teoria coperniana. A formulação de Nicolau Copérnico de que o Sol era o centro do Sistema Solar abala e destrói a duvidosa teoria do Geocentrismo que vigorava até então.
Homens de mentes brilhantes não faltaram para formular dúvidas e tentar decifra-las por toda a Europa. Leonardo da Vinci, Bernardino Telésio, Nicolau Copérnico, Johannes Kepler, Tycho Brahe, Giordano Bruno, Galileu Galilei, Francis Bacon, Isaac Newton, René Descartes devem ser citados com destaque, assim como outros importantes colaboradores.
Era a Revolução Científica que se consolidava, forjada no pensamento crítico e filosófico para dar ao mundo uma explicação digna.
Nascia uma nova forma de produzir conhecimento, que pretendia criar um trajeto mais seguro e provável para se chegar a uma verdade.
A Ciência Moderna não foi construída isoladamente, foi, sim, uma construção coletiva, seqüenciada, sofrida e fruto do reflexo de novas estruturas sociais globais ocorridas na sociedade européia que permitiram tal avanço.
A nova concepção científica trouxe uma nova metodologia, uma nova linguagem matemática, muitos critérios de observação, de experimentação e muitos olhares duvidosos no lugar das certezas.
Daí para frente, foram muitos progressos, uma vez que visões alternativas e mecanismos científicos foram surgindo a cada momento, tendo com abertura, as trilhas feitas no século XVII.
Das mudanças de paradigmas filosóficos e científicos ocorridos da Idade Média para a Renascença e, posteriormente, à Modernidade destaca-se a substituição de uma forma obtusa, submissa e contemplativa do homem diante de inquestionáveis verdades do Medievo para um modo de conhecer a realidade mais racional, criterioso e científico na Modernidade.
Nesse novo modelo o homem não só quer conhecer, mas também transformar e interferir na sua real condição no mundo. Exercendo suas potencialidades intelectuais de forma plena e com liberdade de pensamento.
Vale ressaltar que, as novas concepções filosóficas e científicas encontraram uma grande aliada: as novas técnicas de impressão de livros, que difundiram e popularizaram os novos saberes e pensamentos filosóficos.
Salete Micchelini

terça-feira, 15 de julho de 2008

A vida e o pensamento de Spinoza


É muito árdua a tarefa de discorrer sobre os grandes mestres da Filosofia. Tudo deve estar bem condensado e de forma clara, mas como condensar um filósofo tão notável como Spinoza?
O filósofo Spinoza era dotado de um saber e uma cultura ímpares. Suas fontes inspiradoras vinham da filosofia antiga, do pensamento escolástico (em especial Maimônides e Avicebron), das idéias renascentistas (Giordano Bruno e Leon Hebreu) e da modernidade com Descartes e Hobbes.
Reunindo esse elenco genial numa mente brilhante e livre, só poderia resultar numa nova e poderosa ordem de idéias, que garantiu para a humanidade um dos legados mais significativos do pensamento ocidental moderno.
Esgotar suas idéias, assim como de outros baluartes da Filosofia, é impossível. Mas, podemos nos aprofundar no contexto social e histórico em que ele viveu para saber um pouco mais sobre como se atinge esse patamar de genialidade. Conhecer , principalmente, o que o levou a conceber suas idéias e delas não se desvincular até a morte.
Baruch Spinoza nasceu em 24 de novembro de 1632 em Amsterdam na Holanda. Era de família judaica, de origem hispânica-portuguesa, morou na Espanha e em Portugal, tendo retornado à Holanda em busca de maior liberdade religiosa.
Por ser de família abastada, Spinoza pode estudar com bons mestres. Aprendeu o hebraico, o francês, o latim, além da Matemática e das Ciências. Aprofundou seus estudos no Talmude e na Bíblia.
Através do latim, Spinoza conheceu os clássicos e os renascentistas. Daí, em diante, Spinoza aos poucos foi constituindo suas próprias idéias, que o afastaram da religião judaica. Sua independência de pensamento gerou sérias divergências com os dirigentes da comunidade judaica.
Em 27 de julho de 1656, esses atritos culminaram em sua excomunhão da Sinagoga, acusado de “perigosas heresias”. A insatisfação da comunidade judaica residia no fato de Spinoza ter tornado públicas algumas de suas interpretações e reflexões a respeito da Bíblia.
Em decorrência, Spinoza foi abandonado pelos amigos judeus e por parentes próximos. Sendo que, sua própria irmã quis declara-lo deserdado dos bens deixados após a morte do pai. Porém, Spinoza recorreu à Justiça para resolver a questão e foi vitorioso. Depois de ter reconhecido seu direito por ordem judicial, o filósofo recusou-se a receber os bens. Justificando sua atitude da seguinte maneira, pretendia apenas o direito, mas não aceitava os benefícios vindos dele.
A partir de então, o filósofo passa a levar uma vida solitária e modesta, em quartos alugados nos subúrbios de Rijnburg. Em 1660, fixou residência em Voorburg, nos arredores de Haia,onde se dedicou a escrever suas obras.
Para sobreviver, Spinoza produzia lentes óticas para luneta, um ofício artesanal, que necessitava porém de precisão técnica e científica.
Spinoza afastou-se dos amigos judeus, mas não se afastou dos cristãos. Era acolhido e respeitado nos círculos intelectuais cristãos, porém nunca aderiu ou se manifestou favorável ao pensamento cristão.
Convivia com homens poderosos e influentes de sua época como: os irmãos Witt (líderes do Partido Democrático), o cientista Huygens (com quem mantinha correspondência) e o Eleitor do Palatinado que lhe ofereceu uma cátedra na Universidade de Heidelberg, que Spinoza recusou de forma cortês. O filósofo temia que o cargo de professor universitário viesse a limitar sua paz e sua liberdade de pensamento.
Suas obras principais foram publicadas apenas após sua morte. Porém, em 1676, Spinoza publica anonimamente, o “Tratado Teológico-Político”. A obra é um ensaio racionalista de interpretação bíblica e um manifesto em favor da liberdade religiosa. O anonimato é logo quebrado e sua autoria é descoberta. Emergem severas críticas a Spinoza, vindas de todos os ramos de seitas cristãs.
Spinoza então conclui que os homens de sua época não tinham amadurecimento para entender e aceitar a sua filosofia.
Na verdade, havia uma grande contradição entre a mensagem contida no “Tratado Teológico-Político” e a reação crítica provocada.
Foi nessa obra, que Spinoza se propôs a demonstrar que a liberdade da Filosofia é compatível com a fé, a crença, a devoção e a paz social. E, quando suprimimos essa liberdade será o mesmo que destruir a paz e a própria compaixão cristã.
Seu recado não foi percebido pelas mentes hermeticamente condicionadas às religiões e pouco acostumadas a reflexão.
A única obra publicada por Baruch Spinoza em vida, foi uma exposição de forma geométrica dos Princípios de Filosofia de Descartes, acrescida de complementos metafísicos, em 1663.
Baruch Spinoza faleceu em 21 de fevereiro de 1677, em virtude de tuberculose, quando tinha apenas 44 anos de idade.
A obra-prima de Spinoza foi , sem dúvida, “Ética demonstrada segundo a ordem geométrica”. Essa obra teria sido iniciada em 1661 e nela o filósofo trabalhou durante toda sua vida.
Em 1667, após a morte do filósofo, um corajoso livreiro chamado Rieuwertz, edita as obras de Spinoza: a “Ética”, o “Tratado Político”, a “Emenda do Intelecto” e uma coletânea de “Cartas”.
Foi na monumental obra “Ética”, que Spinoza expõe sua ontologia, trata da natureza da natureza das paixões, formula sua moral e sua teoria da liberdade. O filósofo apresenta a “Ética” numa seqüência rigorosa de teoremas que se encadeiam a partir de definições e de axiomas.
Valendo-se do método cartesiano, Spinoza faz a estrutura do real corresponder a um ordenamento semelhante ao que se expressa na Matemática e que, assim sendo, é possível explica-la de acordo com o método de demonstração usado na Geometria.
Porém, divergia de Descartes, que partia do homem para chegar ao conhecimento de Deus. Spinoza partia de Deus para chegar ao homem.
De forma independente, Spinoza se opõe ao pensamento de Descartes, empregando os mesmos postulados cartesianos para refletir sobre as contradições que ele atribuía e considerava inerentes ao sistema do pensador francês.
Spinoza combateu, especialmente, o dualismo substancial cartesiano entre corpo e alma, assim como a idéia de um Deus transcendente.
O Deus de Spinoza não separável do mundo, mas coincide com ele. Esta conclusão estabeleceu a ruptura do filósofo com a tradição judaico-cristã, que concebe Deus como um ente criador e preexistente ao mundo, um ser distinto do mundo.
Partindo da definição clássica de “substância” como aquilo que não precisa de nada para existir, Spinoza à maneira cartesiana, chega a conclusão que: Deus é a própria substância e é único. Se a substância é única, nada se admite que esteja fora dela e, por isso, tudo compreende. Logo, deus é a Natureza! Deus e a Natureza são a mesma coisa!
E o homem, como Spinoza pensa o homem? O homem é, para Spinoza, apenas um fragmento da Natureza. È um modo finito da substância infinita!
Para encerrar, valho-me das belas palavras do filósofo Bergson sobre Spinoza:
“Estava reservado a Spinoza mostrar que o conhecimento interior da verdade coincide com o ato intemporal pelo qual a verdade se coloca, além de fazer-nos sentir e experimentar nossa eternidade. Nós nos tornamos novamente spinozistas, numa certa medida, toda vez que relemos a “Ética”, porque temos a clara impressão de que essa é exatamente a atitude em que o filósofo realmente respira. Nesse sentido, poderíamos dizer que todo filósofo possui duas filosofias, a sua e a de Spinoza.”
Quando estudamos os antigos gregos, percebemos uma coerência entre o que se falava e o que se fazia. Havia uma total preocupação em ter um modo de vida semelhante e condizente com os ideais doutrinários que se defendia. Essa era a melhor e mais significativa prova de credibilidade para um pensador e mestre.
Spinoza seguiu esse ensinamento à risca: sua vida foi plenamente consoante com sua metafísica. Os contemporâneos do filósofo o consideravam pacífico, tranqüilo e sereno. Spinoza pregava que quando o homem se libertasse das paixões e buscasse o conhecimento verdadeiro delas poderia atingir a paz, a tranqüilidade e a serenidade.
O filósofo Spinoza não se vinculou a nenhuma religião ou instituição acadêmicas para não comprometer a sua liberdade de expressão e de pensamento.
O conhecimento racional é o único meio de nos salvar da ignorância e nos permitir o gozo da felicidade que se confunde com o Ser em sua plenitude.
Enfim, estudar o filósofo Spinoza foi conhecer a importância que existe em conservar a liberdade de pensamento e que o homem, verdadeiramente livre, é aquele que conhece pela razão a necessidade das coisas e age de acordo com essa necessidade.
Para finalizar, uma linda reflexão de Spinoza na “Ética”, V, escólio XVIII:
“Na medida em que compreendemos as causa da tristeza, ela deixa de ser uma paixão, isto é, ela deixa de ser tristeza; e, conseqüentemente, na medida em que compreendemos que Deus é a causa da tristeza, experimentamos alegria.”
Salete Micchelini

Da Metáfora ao Conceito




O pensamento mitológico utilizou-se largamente da narração metafórica. Quando o pensamento vale-se da metáfora, constata-se uma linguagem explicativa, com elementos simbólicos e quase poéticos.
Na construção do pensamento mitológico, a metáfora fazia a função comparativa, apresentando uma resposta convincente para as dúvidas do homem da época. As metáforas conseguiam trazer o entendimento de forma singela para uma mente que pouco especulava.
A narrativa mítica não se preocupava com o exagero ou a contradição contidos nas metáforas, pois ela simplesmente se bastava para a compreensão do ser humano. Esse estágio inicial do pensamento aceitava passivamente as explicações e se satisfazia com elas.
Porém, com o surgimento de condições históricas surgiram para que o pensamento filosófico se irrompesse. O pensamento humano se sofisticou, se refinou, tornou-se mais elaborado e requintado pois precisava aplacar as inquietações trazidas por novos questionamentos. Não havia mais lugar para incoerências, fantasias ou contradições.
O homem racionaliza e encontra explicações confiáveis. Elaborar um conceito filosófico exige uma atividade mental consciente, críticas e reflexivas, que se revestisse de idéias lógicas e corretas. O conceito passa a ocupar o lugar da metáfora. No conceito, o pensamento encontra resposta com coerência interna e que ultrapassa o limite da metáfora.
A mente humana se capacitou, se lapidou e atingiu altos níveis de sinapses. O saber mítico que era definitivo e óbvio, tornou-se duvidoso e questionável, possibilitando uma revolução no pensamento.
O pensamento filosófico fez resplandecer o raciocínio!
Salete Micchelini

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Revolução científica (séculos XVI e XVII)


As mudanças de paradigmas cosmológicos efetuadas nesse período desencadearam outras revolucionárias propostas no decorrer dos séc. XVI e XVII. O pensamento filosófico baseado no modelo aristotélico-ptolomaico, mantido pela Escolástica, teve que ser repensando. O homem buscava outro posicionamento diante do mundo e do seu destino para muito além da vontade divina. Com o Heliocentrismo, surgiram propostas metodológicas, matemáticas, astronômicas, físicas e na área de instrumentação científica.

Nicolau Copérnico (1473-1543) munido de sua corajosa genialidade forçou uma completa modificação do pensamento europeu de sua época.. Através de seus cálculos, observações e fundamentos teóricos, ele demonstrou com segurança os movimentos dos corpos celestes e do sol como centro do Sistema solar (Heliocentrismo).

O fabuloso Galileu Galilei (1564-1642) trouxe para a ciência florescente a instrumentação que possibilitou uma série de descobertas, confirmando e ampliando as propostas de Copérnico. Formulou também seu próprio método indutivo de trabalho científico que assegura suas conclusões.

Johannes Kepler (1571-1630) estudioso do Cosmos que com suas propostas alterou estudos copernianos. Calculou trajetórias dos planetas, suas variações de velocidade ao redor do Sol, formulando as bases da Astronomia Moderna.

Com Issac Newton (1642-1727) a Física Clássica fica configurada, os fenômenos naturais são observados, com experimentação para posterior formulação de hipóteses e sua demonstração indutiva, culminando na elaboração de leis universais. São apresentadas as leis da gravitação universal – as três leis de Newton.

Como precursores de um trabalho científico sistematizado e criterioso, destacaram-se Leonardo da Vinci (1452-1519 e Francis Bacon ( 1561-1626) que ensinava que para conhecer é preciso observar os fatos, classificá-los e determinar suas causas.

Salete Micchelini

O Príncipe (Maquiavel)

Nicolau Maquiavel (1469-1527) era italiano de Florença. Pensador e estudioso dos clássicos, era apaixonado pela política. Sua controvertida obra é uma espécie de ”manual” sobre a arte de governar, onde o Universo político é cruamente exposto, nele reina a lógica da força dominante e a “virtude” está a serviço da perpetuação no poder.
A repercussão dessa obra foi tamanha que, em todo o mundo, após o seu surgimento inúmeras palavras aumentaram o vocabulário lingüístico com substantivos, adjetivos e verbos como: maquiavelismo, maquiavélico, maquiavelizar etc.
São tantas as interpretações, os estudos comentados, os debates de analistas que vão de personalidades como Jean-Jacques Rousseau, Napoleão Bonaparte, Merleau-Ponty a Antonio Gramsci. Gioberti diz: - “Maquiavel é o Galileu da Política!”
Espantosa é a “modernidade“ da obra escrita em 1513, ou seja, há 495 anos. Para Maquiavel, o poder e o controle substituem a compaixão e a justiça na realidade da política. A mentira é perfeitamente aceitável e está sempre a serviço do governante, que pode fazer o que bem quiser, contanto que não seja pego. O argumento do governante sempre deve ser que tudo foi em prol dos cidadãos, sejam atitudes certas ou erradas.
A máxima que permeia a atuação do governante é famosa: “Os fins justificam os meios!” De acordo com “O Príncipe”, o governante tem uma “ética” própria (virtu), que é desvinculada e diferenciada de qualquer regra conhecida ou preestabelecida. Diz Maquiavel: -“ O tempo leva por diante todas as coisas, e pode mudar o bem em mal e transformar o mal em bem!”
Governantes absolutistas dos séculos XVII e XVIII, fascista como Benito Mussolini em 1924 utilizaram as lições de “O Príncipe”. Dizem que Stalin, tinha “O Príncipe” como livro de cabeceira.
A inovação e a perpetuação dos estudos de Maquiavel sobre a política reside no fato de que ele não se preocupa com conceitos de formas de governo, mas como os homens governam “de fato”. O homem que detém o poder, geralmente, se cega, se corrompe, se utiliza meios inescrupulosos e inúmeros artifícios psicológicos sobre a população para se conservar no poder. Aliás, em se tratando de poder, a vaidade humana gera conflitos, arrogância, opressão, uma luta inevitável entre interesses opostos que são inerentes à atividade política humana.
Maquiavel constata que o bem comum necessita de leis, porém a burocracia e os políticos corrompem-se. Então, o que se pode esperar de uma elite política corrompida legislando em causa própria? Não há como o povo ter um bom retorno nessa situação, pois as leis deixam de representar os interesses públicos.
Quando se trata de fazer política, para Maquiavel significa compreender o sistema de forças com interesses opostos, de calcular e contrabalançar um equilíbrio entre as ações dentro desse sistema.
Maquiavel escreveu “O Príncipe” como um método de ensino de governo para o jovem Duque de Urbino chamado Lorenzo de Médicis, sob a aparência de justificar a tirania. Porém, ele revela aos cidadãos todos os procedimentos execráveis que deveriam ser rejeitados por toda a população...Quase 500 anos se passaram, “O Príncipe” continua atormentando o entendimento, a análise e dando lições das relações existentes entre política, poder, moral dos governantes e população. Cabe a nós, cidadãos conscientes, estudá-lo também, pois dessa forma entenderemos um pouco do agir político adotado e repetido, sistematicamente, nas relações de poder. Assim, estaremos nos preparando para atuar contra as obscuras armadilhas das diversas formas de dominação política. Confesso que, retomarei a leitura de “O Príncipe”, pois ainda tenho muito a aprender e refletir sobre os métodos políticos.
Salete Micchelini

Profecia auto-realizadora, o que é?


A aprendizagem é um processo interpessoal, construído de forma socializada e que envolve uma série de mecanismos conscientes e inconscientes. Procurar entender esses complexos vínculos entre as partes é determinante para o sucesso da relação. Em 1964, dois pesquisadores norte-americanos, ROBERT ROSENTHAL e LEONORE JACOBSON apresentaram seus estudos a respeito do fenômeno da PROFECIA AUTO-REALIZADORA.
A Profecia Auto-Realizadora consiste em projeções intuitivas e pré–concebidas que fazemos a respeito de outra pessoa, de um grupo ou de uma situação.Ela poderá ser positiva ou negativa e, inconscientemente, conduziremos a realidade para que nosso prognóstico sobre o fato se confirme.
Para exteriorizar nossas expectativas previamente elaboradas, utilizamos esquemas e pistas verbais e não-verbais, que são captadas por nosso alvo. Essas mensagens, ao serem introjetadas pelas pessoas, vão sendo colocadas em funcionamento de acordo com a expectativa que escolhemos para elas, até serem confirmadas e realizadas conforme nossa primeira intenção.
Cientes desse fenômeno, os psicólogos alertam aos pais e professores, para que estejam atentos para aquilo que projetamos e vamos conduzindo, que nunca façamos (pré)conceitos antecipados em nossas relações, pois elas poderão se realizar de uma forma a causar danos também.

Salete Micchelini

Sobre a Escola da Ponte (Portugal)

Conheci a ESCOLA DA PONTE de Portugal, através do olhar e das palavras de Rubem Alves. Após uma visita a essa escola portuguesa, em 2000, Rubem Alves dedicou-lhe uma série de seis crônicas publicadas no JORNAL CORREIO POPULAR de Campinas, que foram, posteriormente, transformadas em um livro: A ESCOLA COM QUE SEMPRE SONHEI;SEM IMAGINAR QUE PUDESSE EXISTIR.
Tudo que li foi surpreendente e encantador, pois a ESCOLA DA PONTE tem uma dinâmica inovadora e própria, com um incrível respeito ao potencial do aluno. Nada na ESCOLA é convencional. Tudo é decidido de forma coletiva e harmônica. O currículo é flexível, pois a participação e a interação professor-aluno permite um aprendizado responsável e consciente. Não existe preocupação com cumprimento de Programas ou Currículos pré-estabelecidos. Todos são professores de todos. Professores a alunos estão, simultaneamente, ensinando e aprendendo. A preocupação primeira da ESCOLA na formação do aluno está no SER. Se se depara com algum obstáculo, todos se voltam para soluciona-lo, pois dentro de uma aprendizagem cooperativa e solidária, o problema é para toda a ESCOLA. Isso é EQUIPE!
A disciplina é fruto de uma liberdade responsável, pois os alunos decidem as regras a serem cumpridas em assembléias, como também decidem o que fazer e como agir diante de uma regra desrespeitada. A família é chamada a cumprir seu papel desde a primeira reunião do ano letivo e se compromete com sua tarefa e seu acompanhamento. Os alunos se mostram felizes e criativos pois sabem que estão construindo conhecimentos para suas vidas. Enfim, como o próprio título do livro é uma escola dos sonhos... onde professores e alunos respeitam-se e valorizam-se. O vínculo existente entre eles é solidário e afetivo, daí nasce uma aprendizagem prazerosa e criativa.
Para terminar escolhi duas frases de um profissional da ESCOLA DA PONTE chamado Pedro Barbas Albuquerque, que me marcaram muito: -Os programas das disciplinas a serem cumpridos são o maior entrave ao trabalho do educador. Pois nem todos os currículos são VITAE. Há currículos que são MORTIS. – Há alunos com sorte, Há professores sem sorte alguma. Mas, neste caso, como noutro, a sorte não é um mero acaso. (Pedro Barbas Albuquerque).

Salete Micchelini

O que fazer com minha liberdade?

Sartre, na sua genialidade, condenou o homem a ser livre. E, quanta responsabilidade decorre dessa condenação!!! O homem consciente é dotado de liberdade de ação, pode fazer suas escolhas de fôro íntimo mas, automaticamente, será responsável por elas. Segundo Sartre, podemos escolher que tipo de pessoas e como agiremos no mundo... e como nos enganamos... Como vivemos em sociedade, estamos sujeitos às normas, essas normas têm um patamar acima da nossa liberdade de ação pois foram criadas para regular essa liberdade, visando o bem-estar coletivo. Nossas escolhas e nossas decisões configuram nosso livre-arbítrio. Quando agimos livremente, sem influências de regras ou da imposição do outro, estamos realizando nosso ideal de liberdade. Porém, vivendo em grupo, passamos pelo crivo moral, para que essa escolha seja responsável e ética.
Salete Micchelini

Ética a Nicômaco (Aristóteles)


Desde a Antiguidade Clássica Grega que o homem tenta entender a virtude para através dela atingir um bom caminho para se ter uma vida melhor e mais feliz. Podemos nos tornar pessoas melhores dentro da coletividade, ou seja, mais éticas e mais virtuosas?
A resposta positiva encontramos na ÉTICA PARA NICÔMACO, onde Aristóteles escreve seus ensinamentos para seu filho Nicômaco. Ele nos mostra que a virtude é um hábito que, tanto não só pode, mas também deve ser ensinada. Residindo ai, nessa formação básica familiar, o alicerce educacional para um homem melhor e mais virtuoso.
O compromisso familiar na formação desse hábito do BEM, há muito vem sendo relegado e esquecido na educação moderna. O ritmo de vida imposto pela modernidade modificou a organização familiar. O casal já não dedica mais o mesmo tempo na educação de seus filhos. Aliás, muitos filhos, têm pouco ou quase nenhum contato com os pais durante a semana. Aquilo que deveria ser ensinado, aprendido e posto em prática vai se perdendo e sendo esquecido. Preenchendo o vazio deixado pela falta da experiência transmitida no seio da família, aparecem outras (preocupantes) influências. O pior é que, percebe-se a família atual está tão desnorteada, que nem mesmos os pais têm consciência daquilo que deveriam repassar aos seus filhos... pois tal ensinamento também não foi repassado a eles próprios! Se os pais não foram formados, como poderão passar uma formação ética aos seus filhos?
O papel do educador, ESSENCIALMENTE, está aí, como formador do SER. É urgente que se formem cidadãos, ao invés de priorizar acúmulo de conhecimento. Essa é a única saída para uma sociedade futura melhor!
Salete Micchelini

Como posso ser feliz?

Recorro-me a Mahatma Gandhi quando disse: “Não existe um caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho.” A subjetividade da questão traz algumas divergências, porém minha concordância com a frase de Gandhi está no fato de que não devemos adiar nossa felicidade a situações futuras. O presente é a morada da felicidade e depende de cada um vivenciá-lo bem e feliz.
A felicidade não pode ser hipotecada à partícula SE... mas deve brotar, homeopaticamente, em momentos únicos que podem passar despercebidos. Dessa forma, abre-se um leque de possibilidade para ser feliz: desde respirar o ar fresco da manhã, afagar o bichinho de estimação até prestar serviço voluntário numa ação social. É fato que existem inúmeras situações de sofrimento ao nosso redor que podem comprometer nossa felicidade. Mas, é aí que se encontra a prova crucial para nossa capacidade de nos conduzirmos no caminho do bem estar.
A felicidade surgirá no ato solidário, na atenção dispensada ao próximo, na palavra amiga e generosa que poderá gerar uma ação transformadora da realidade. Cultivar bons pensamentos, direcionar o olhar para a natureza, acolher e ajudar ao próximo dentro de nossas possibilidades, saborear um copo de água fresca... tudo isso pode somar instantes felizes que formarão minutos felizes e horas felizes.
Para concluir, seria bem mais fácil apontar onde a felicidade NÃO está! Ela não se encontra numa cirurgia plástica, no último modelo de carro, em relógios e jóias de ouro, em roupas de grife ou nas mansões...Sabe por quê? Porque poucas pessoas têm tudo isso, assim sendo, o restante estaria condenado à infelicidade. O que ocorre é justamente o oposto, pois a felicidade não está atrelada a coisas ou bens exteriores. Pessoas que possuem ou podem comprar tudo, teriam que ser obrigatoriamente felizes... e não o são! Enfim, a felicidade não é algo que se conquista fora de nós mesmos, porque ela mora dentro de nós e no momento presente!

Salete Micchelini

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Antropologia Cultural


Manifestação cultural brasileira popular: A Capoeira

Contexto histórico
Misto de dança, jogo, brincadeira e luta essa manifestação cultural surgiu com os escravos vindos da África.
Na época do Brasil-Colônia, meados do século XVI, havia muita necessidade de mão-de-obra no cultivo e no engenho de cana-de-açúcar.
Foi assim que, quatro milhões de negros africanos foram capturados na África para serem submetidos ao trabalho escravo no Brasil.
Um intenso tráfico de escravos se formou entre África – Pernambuco – Bahia – Rio de Janeiro, onde aportavam os “navios negreiros” desembarcando os negros cativos.
A partir daí, um triste capítulo e violento capítulo teve início, manchando de suor, sangue e lágrimas, as páginas da História do Brasil.
Ao negro escravo era negada até a condição de ser humano. Depois de negociados como mercadorias, o dono podia usar e dispor do escravo como bem entendesse. O tratamento dispensado ao escravo era, praticamente, o equivalente ao dado aos animais de serviços de tração.
Ao contrário do que muitos pensam, os negros não aceitaram, pacificamente, o cativeiro e as torturas que lhes eram impingidas. Os homens que reinavam livres nas tribos africanas, não se submeteram aos maus-tratos de seus proprietários, sem demonstrar uma forma de reação e resistência.
Quando o sofrimento nas “senzalas” se tornava insuportável, muitos negros fugiam arriscando a vida em busca da liberdade. Alguns eram recapturados pelos “capitães-do-mato”, que os traziam de volta à fazenda e lhes aplicavam castigos brutais. Aqueles com obtinham sucesso na fuga, formaram comunidades de resistência, onde se abrigavam, eram os “Quilombos”
Os negros que permaneciam como escravos não podiam expressar sua cultura de origem em rituais religiosos ou de guerra.

Capoeira brasileira
A maioria dos estudiosos afirma que a manifestação surgiu no Brasil, porém o fato não pode ser comprovado, por falta de registros históricos. Segundo se apurou, a capoeira surgiu no Brasil, entre os negros bantus vindos de Angola. A validação dessa hipótese se dá na inexistência de manifestações semelhantes em quaisquer outros lugares do mundo que também receberem escravos vindos da África.

Capoeira e seus significados simbólicos
A capoeira compõe-se de uma atividade corporal com coreografia acrobática que lembra propositalmente uma dança, reforçada pela presença da música. Sem música, não há Capoeira. Só depois que os músicos se colocam em forma de roda, impondo o ritmo ao som de instrumentos, de cantos e de palmas, é que os participantes se apresentam.
Assim, aos olhos dos “donos”, os escravos dançavam e se divertiam a sua maneira pela noite adentro.
Porém, golpes precisos e mortais se aliavam à ginga, aos passos de destreza, de elasticidade, de atletismo que visavam um treinamento de combate cujo objetivo era derrubar o adversário. Dessa forma disfarçada, a Capoeira se espalhou e era permitida nos terreiros e nas senzalas.
A Capoeira proporcionava a manutenção de traços da cultura africana, aliviava o estresse do trabalho escravo, promovia a conservação da boa forma física e preparava os homens na técnica de combate.

Capoeira: da repressão à liberação
- Após a Abolição (1888), veio a Proclamação da República (1889), a Capoeira foi oficialmente proibida pelo Marechal Deodoro da Fonseca e considerada crime. A pena a quem praticasse variava de 300 açoites com sal e cachaça à ida para o calabouço.
- Em 1893, deu-se o auge da repressão, a pena foi transformada em deportagem dos praticantes para a Ilha de Fernando de Noronha com trabalhos forçados.
- Em 1937, o presidente Getúlio Vargas, revogou a lei Sampaio Ferraz, liberando a prática da Capoeira, pois considerou sua proibição como preconceito e perseguição.
- Em 1972, a Capoeira foi reconhecida como “esporte” pelo Conselho Nacional de Desportos.
- Atualmente, a Capoeira é ensinada e praticada em Academias e Escolas como esporte para todas as idades, ambos os sexos e todas as camadas sociais, tanto no Brasil como em todo o mundo.
Salete Micchelini

sábado, 15 de dezembro de 2007

Resenha crítica: "Educação após Auschwitz" (T. W.Adorno)


Theodor Wiesengrund Adorno (1901-1969), filósofo, sociólogo e musicólogo. Nasceu na Alemanha na cidade de Frankfurt, onde se destacou como membro da famosa Escola de Frankfurt. Devido à perseguição aos judeus viveu exilado por alguns anos.
Suas idéias tomam a própria sociedade como objeto e consideram a produção cultural em sintonia com a ordem social em vigor.
Criou o conceito de “indústria cultural” para designar a exploração sistemática e programada dos bens culturais com finalidade de lucro e de enganação.
Seus escritos contêm fundamentos da dialética de Hegel e uma profunda conotação sociológica.
A resenha, ora apresentada, vincula a educação como instrumento de formação de pessoas que podem cometer atrocidades a serviço de um sistema xenofóbico.
Auschwitz foi um conjunto de quatro campos de concentração (1941-1944), construídos pelos nazistas para extermínio de judeus, na cidade polonesa de Oswiecim.
Nas quatro câmaras de gás e fornos de incineração, chegaram a ocorrer 200 incinerações por dia.
Em Auschwitz, eram realizadas experiências genéticas macabras utilizando os prisioneiros judeus como cobaias. Calcula-se que três a quatro milhões de prisioneiros foram assassinados nessas instalações, onde hoje funciona um “museu” do Holocausto!
Theodor W. Adorno não quer que isso caia no esquecimento e muito menos que fato volte a acontecer.
A Segunda Guerra Mundial deixou marcas e danos irreparáveis na condição humana e não apenas naqueles que sofreram os horrores e as barbáries como vítimas diretas ou indiretas.
O fato mais assustador é que a própria sociedade propiciou homens capazes de cometer tais atrocidades e permitiu que uma verdadeira “indústria de extermínio” de pessoas se instalasse e funcionando plenamente.
Auschwitz foi um episódio tão abominável e inconcebível que jamais poderá ser apagado ou esquecido nas páginas negras dos livros da história.
È doloroso ter consciência de que tudo o que lá foi erguido e praticado contou com a intenção e a inteligência humana. Era o ser humano versus o ser humano, justificado por uma cruel intolerância à diversidade racial e cultural.
Como entender uma atitude planejada, racionalmente, se a razão não condiz com tal circunstância?
Nem mesmo na mais primitiva espécie animal, dita “irracional”, algo semelhante foi registrado.
Daí, a preocupação do pensador Theodor W. Adorno se justifica e até hoje nos atormenta: Como que evitar Auschwitz venha a se repetir?
Alguns educadores sem negam a retroceder ao dantesco episódio, pois a simples referência a ele já nos causa indignação e vergonha. Então, que se faça a sua subestimação ou negação?
Porém, Adorno diz que não sepultá-lo e questioná-lo é uma maneira de evitar sua repetição.
O mundo contemporâneo, agora “globalizado”, onde predomina a ideologia capitalista está correndo sérios riscos. Vale que retomemos essa discussão!
Atualmente, o indivíduo está sujeito ao imediatismo, ao consumismo e ao individualismo desenfreado, como preparar a pessoa para esses descaminhos? O que a educação pode fazer pela pessoa? O que se deve cultivar como valores? Que sementes devem ser plantadas para que a pessoa seja mais humana e não desumana?
Tudo isso preocupava Adorno. A possibilidade de que nova carnificina como a de Auschwitz encontrasse terreno fértil para se reinstalar era o temor do filósofo. Onde teria ocorrido tamanha falha na formação daqueles homens que se prestaram a tanta crueldade? Na sociedade? Na família? Na escola? Nesse conjunto social?
A contemporaneidade trouxe novos paradigmas educacionais. A escola se atrelou a um tecnicismo para atender a um sistema de formação para o trabalho e para a preparação para um sistema produtivo carente de mão-de-obra eficiente.
Seres, novamente, “coisificados”, desprovidos de sua humanidade vêm se reproduzindo e repassando esse mesmo tratamento ao seu semelhante. Isso também é violência, pois a violência não está apenas na agressão física (essa é uma das suas manifestações), mas também na forma indiferente de perceber o outro e a si próprio.
E o ambiente físico escolar? As escolas se assemelham a prisões. Prédios mal planejados, danificados, grades por toda parte, frieza de concreto, salas abafadas e lotadas de “coisas” (ou seriam “pessoas”?). Será que esse ambiente propicia o despertar da sensibilidade e da criatividade para uma aprendizagem transformadora?
Repensar a escola é urgente. Adorno nunca foi tão atual. Retomar esse questionamento é fundamental para evitar “minis-Auschwitzes” nacionais.
Adorno sugere os esportes, jogos lúdicos, sem o propósito competitivo, mas do convívio solidário e de equipe, onde as forças são somadas para o cumprimento de uma meta comum.
Outra vertente que desperta a sensibilidade e inibe a brutalidade é o ambiente das artes em geral (a música, a pintura, a poesia, o teatro, o artesanato...), essas formas de expressões culturais quando despertadas elevam e sintonizam ao humano à sua essência interior.
Repensar a escola é humanizá-la. Voltá-la para o caminho da cooperação, do diálogo, do entendimento, do apoio a posturas sensatas e conciliatórias. Através das relações interpessoais, que mexem com a emoção e geram laços afetivos se consegue uma ação transformadora e humanizante.
Se for necessário, que se ensine a “ser” e a se “conhecer” , ao invés de ensinar pacotes de conteúdos e conhecimentos, hermeticamente contidos em “programas” pré- fabricados.
Uma sociedade educacional é aquela que cria vínculos, que valoriza as diferenças e resgata as identidades perdidas. A escola humanizada é solidária, é espaço de socialização, de convivência harmônica e de preservação da vida plena para que Auschwitz nunca mais se repita.
Vale lembrar que, já na Antiguidade Clássica, os sábios Sócrates e Platão concordavam que o objetivo máximo da Educação era despertar o corpo e a alma para a beleza, a virtude, o amor, a verdade, o bem...
O texto de Adorno é um alerta para a sociedade e para os educadores, É preciso refletir sobre o tipo de ser humano que nosso sistema social está gerando e formando.
Somente a reflexão crítica e filosófica pode impedir que as pessoas cheguem a ponto de repetir atrocidades, que sejam devotas e se submetam a ideologias de intolerância de qualquer ordem.
Repensar a realidade educacional, questionar as políticas educacionais embutidas de ideologias impostas como corretas e intocáveis é tarefa do educador consciente.
Quando a realidade educacional e cultural se torna endurecida e inflexível fica em total descompasso com a sensibilidade de ser “humano”.
Questionando os papéis e as condições da família, da escola, da mídia, do sistema, da política governamental poderemos chegar às respostas para os fracassos educacionais.
De tudo isso, o mais importante é a tomada de consciência de que cada acontecimento de barbárie não se resume apenas ao ato de sua consumação, mas envolve outras questões que criaram a possibilidade para que ele viesse a acontecer!

Salete Micchelini




quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A pessoa na sociedade pós-moderna


Há algumas décadas atrás, as histórias e os filmes de ficção científica prenunciavam um segundo milênio onde tudo era automatizado, onde pequenas espaçonaves voavam entre torres metálicas e as máquinas de todas as formas e funções atuavam no lugar das pessoas.
Era o máximo da modernidade, poder assistir, naquela época, como seriam os tempos modernos, pois aquele era o futuro inevitável do planeta.
Depois, o apelo da ficção passou a ser mais assustador, as histórias e os filmes se voltaram para um futuro sombrio, onde imperava a desordem num planeta destruído. Os sobreviventes da espécie humana perambulavam por entre escombros do que restava das grandes cidades, arruinadas por bombas atômicas.
Na atualidade, superamos muitos mitos criados pela ficção. Não há mais como esperar um robô nos serviços domésticos ou um bando de sobreviventes do caos atômico vagando sobre um carro velho.
Superamos, inclusive a fatídica barreira criada para a data da passagem do milênio. Fato que causou pânico e expectativa nas populações, pois entrar no ano 2000, implicaria em calamidades e hecatombes anunciadas profeticamente.
Estamos na pós-modernidade, vivenciando um futuro que não trouxe nem tanta “automação” nem tanta “destruição atômica”...
Talvez, porque a ficção tivesse se preocupado muito mais com o que estava em torno da pessoa do que com a própria pessoa. Assim, havia uma curiosidade para se saber como seriam as cidades, os carros, as roupas, as casas, enfim, como seria o mundo no futuro...e não como seria a pessoa no futuro!
E a pessoa no futuro, como é e está??? A pessoa continua com as mesmas buscas interiores, os mesmos anseios e as mesmas necessidades.
Aliás, a pessoa humana sempre esteve renegada a segundo plano por interesses óbvios do poder dominante. Destacar a pessoa em detrimento das coisas mundanas, implica em conhecê-la e valorizá-la e, infelizmente, isso não é prioridade da elite dominante.
A pessoa consciente de si e do outro, encontra objetivo existencial e plenitude de vida. Passa a valorizar pequenas coisas que custam pouco, pequenos gestos que fazem a diferença.
A pessoa ciente de seu valor, prioriza o “ser” e nunca o “ter”, e isso não faz parte do modelo imposto pelo capitalismo.
Quando a pessoa se valoriza, automaticamente, ela valoriza o outro enquanto semelhante, com os mesmos direitos e deveres que ela própria.
Quando a pessoa se valoriza, ela deseja o melhor para si e para a sociedade em que vive.
Quando a pessoa se valoriza, ela se dedica ao prazer de preservar as expressões e manifestações culturais de seu povo.
Quando a pessoa se valoriza, ela não se rende aos apelos do consumismo exacerbado e à degradação moral que consome os vínculos afetivos e familiares.
Quando a pessoa se valoriza, ela entende que é única e insubstituível, que não pode entregar a ninguém a tarefa de pensar e agir em nome dela.
Quando a pessoa se valoriza, ela descobre que ninguém é feliz isoladamente, que, em tudo existe uma força de ligação no Universo, onde deve haver uma total harmonia.
Esse é o nosso desafio, nos valorizarmos como pessoas capazes e solidárias, provar que juntos podemos construir um mundo mais justo e mais equilibrado.
Isso, os educadores, os pensadores, os filósofos e os poetas já sabiam...basta levar em frente o sonho que o “todo-poderoso” sistema insiste em fazer acreditar como sendo impossível!
Contudo, um poeta disse certa vez...
“Sonho que se sonha junto vira realidade.”
Nosso desafio é valorizar a pessoa, para que ela volte a sonhar!!!!!

SALETE MICCHELINI

FILOSOFIA e EDUCAÇÃO


O mundo contemporâneo nunca precisou tanto de ser repensado e redirecionado. As mudanças, as contradições, as incoerências presentes em nosso dia a dia pressupõem uma relação íntima entre Filosofia e Educação. É notória a transformação ocorrida em todas as áreas do conhecimento científico nas últimas décadas.
E, como a educação poderá acompanhar essa evolução, sem se desumanizar? Qual deverá ser o caminho a ser trilhado, ou seja, que fio condutor será o ideal para a Educação nos novos tempos?
Assim, surge a participação filosófica, produzindo questionamentos e reflexões necessárias. O saber sempre foi vinculado à atitude filosófica, desde os primeiros lampejos de raciocínio lógico, que colocaram em dúvida as explicações mitológicas na Antiguidade Grega.
Naquela época, nascia a Filosofia , especulando e sugerindo alternativas para saberes até então intocáveis.
Essa missão questionadora do “ser filosófico” é que possibilitou criar e aprimorar todo o conhecimento humano.
O que seria da Educação sem a Filosofia?
Possivelmente, estaria estagnada em alguma época histórica onde educar era sinônimo de adestrar , memorizar ou oprimir . Vale lembrar que, no início do século XX ainda se utilizava a “palmatória” nas salas de aula!
Educação e Filosofia são áreas das ciências HUMANAS, e são tão afins que os grandes revolucionários da Educação, foram também grandes pensadores e filósofos. Como: Jean Jacques Rousseau, Henri Pestalozzi, Emile Dürkheim, Jean Piaget , e, tantos outros.
O ser humano como gerador e reprodutor da “vida” tem o compromisso e o dever de si repensar, enquanto gerador e reprodutor também de “conhecimento”!
A Filosofia surge então, com sua insustentável leveza e sutileza, porém capaz de abalar estruturas e alicerces... Podendo romper e reedificar, podendo ajustar e redirecionar o que hoje se encontra estabelecido como um programa pronto inserido por um sistema educacional.
As mudanças sociais e históricas são enormes, as crianças de hoje não têm os mesmos anseios, os mesmos interesses, enfim as mesmas características das crianças de uma ou duas décadas atrás. Como preparar esse pequeno ser para um futuro incerto, um mundo conturbado, sem automatizá-lo?
Essa é uma indagação que compete à Filosofia responder. Nenhuma ciência se preocupa tanto com a dimensão “humana” e com a incansável promoção do bem estar e da felicidade como a Filosofia.
A Educação assim sendo, pode amparar-se na Filosofia, pois a Educação também “deveria” ter essa mesma preocupação. Digo, “deveria”, porque algumas correntes educacionais afastaram-na dessa finalidade. A educação contemporânea enveredou-se por práticas tecnicistas, profissionalizantes, massificantes porém lucrativas, esquecendo do “ser”... O “ser”, que é muito mais que um cofrinho , onde diariamente, são depositadas moedas de saber, para enriquecê-lo no futuro. E, ao final do ano letivo, teremos um aluno como um cofrinho cheio de informações e fórmulas mágicas, às vezes, descartáveis e inúteis!
Cabe então, à Filosofia a tarefa de perguntar: Que tipo de saber se faz necessário nos nossos dias, onde o conhecimento já está condensado na tela do computador?
Ao Educador, não caberia a tarefa essencial e primeira de levar o Educando a si conhecer melhor? Antes mesmo de conhecer o outro e o mundo?
Afinal, era justamente isso que o grande Sócrates ensinava a cerca de 350 anos antes de Cristo...
“Conheça-te a ti mesmo!”

SALETE MICCHELINI

terça-feira, 20 de novembro de 2007

TIRANOS no poder!


Épocas conturbadas, de crises sócio-econômicas, de desgoverno, de desmandos formam o cenário para o surgimento da Tirania, onde reinará a figura do “tirano”.
Platão afirmava que uma excessiva liberdade de uma democracia, também pode levar o povo a cair nas garras de um tirano.
Assim, instala-se a servidão dessa sociedade a um governante cuja vontade é a lei. O tirano só deseja preservar seu poder e sua riqueza, aniquilando e esmagando a participação, os anseios e as vontades de seus súditos.
Conforme nos ensina Nicola Abbagnano, atualmente o termo “Tirania” é bem menos usado, isso não quer dizer que os regimes tirânicos tenham desaparecido ou estejam fora de moda.A Tirania hoje, encontra-se sob o véu do Absolutismo ou Totalitarismo. Eles estão presentes nos cinco continentes...
O status do tirano, ou seja sua legitimação e sua perpetuação no poder se faz através da Educação.
Ao governo tirânico interessa, súdito escravizado e obediente, sem reflexão crítica, sem visão de futuro, sem ideais revolucionários, com elevado grau de submissão e de tolerância. Esses “princípios” que interessam à Tirania são passados através da Educação.
Assim, o cardápio escolar servido nas escolas dos governos totalitários ou tirânicos está recheado de sua ideologia.
Daí, a responsabilidade do EDUCADOR, que deve estar sempre atento ao currículo, ao material didático e às prioridades que são estabelecidas pelo interesse do Sistema.
SALETE MICCHELINI

O "Super-homem" virá?????


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) escreveu o profético “Assim falou Zaratrusta” aos moldes dos textos bíblicos, dos textos hebreus e épicos antigos. Era estudioso de Teologia e de textos clássicos da antiguidade. O próprio Nietzsche confessou que o seu “Zaratrusta” era um livro incompreensível por ter uma condição particular e íntima.
Após ler “Assim falou Zaratrusta”, faço a seguinte consideração: o escritor utiliza-se do profeta errante Zaratrusta para pregar sua idéia do Eterno Retorno, da finitude de tudo e de Deus não existe. Só a morte elevaria o homem a ponto de uma superação de sua condição para Além-do-Homem. Entendo que essa morte, pode também representar, a extinção de uma maneira de sentir, de pensar e de avaliar antiga para que nasça outra
Porém, valendo-me do próprio pensamento de Nietzsche, que não via objetivo na existência do Universo, ele dizia que se a existência tivesse alguma finalidade, já teria realizado, pois tudo é finito, chego ao seguinte questionamento:
- Se a condição de “Super-homem” profetizada por Nietzsche em 1883, fosse possível de realização, ela já não deveria ter sido atingida????
SALETE MICCHELINI

Cultura popular X Cultura erudita



Sendo a Cultura uma construção histórica e coletiva da vida humana, ela é composta dos variados e diversificados processos que as sociedades atravessam. Abrangendo um conjunto de saberes coletivos e próprios, que se manifestam através de códigos verbais e não-verbais, práticas costumeiras e rituais, expressões festivas e artísticas.
A dualidade estabelecida entre cultura “erudita” e cultura “popular” interessa, diretamente, ao conhecimento dominante. Ficando intrínseca a idéia de que o “erudito” é produzido por uma classe superior e elitizada, porque participa, justamente, das instituições dominantes.
O “popular” é o oposto (estipulado pelo próprio saber “erudito”) ficando atrelado às classes pobres, à cultura inferior, que seria menos requintada, elaborada e requintada.
A manutenção dessa polarização é uma atitude política, pois a reversão dessa idéia passa pela transformação das relações sociais e das desigualdades entre as classes sociais.
O conhecimento de determinada cultura possibilita os instrumentos necessários para sua dominação. E, ciente disso, o poder constituído preocupa-se em definir, em entender, em controlar e em infiltrar na cultura os seus próprios interesses.
É nesse momento que a cultura adquire o caráter de resistência à dominação, pois a cultura pode expressar força de libertação e de “rebeldia” em suas múltiplas manifestações.
Uma manifestação cultural popular pode conter o caráter transformador, exteriorizando a luta travada na relação entre opressores e oprimidos.
A cultura utiliza-se de ações humanas simbólicas e essa pluralidade cultural é que faz a diferenciação entre os grupos humanos, porque no aspecto biológico ou físico somos todos homo sapiens ...daí o comentário do Prof. Leslie White: “...um macaco não é capaz de apreciar a diferença entre água benta e água destilada”
SALETE MICCHELINI

Interrelações de Cultura, Poder e Ciência


Ciência, Cultura e Poder são temas delicados e polêmicos, principalmente, devido ao uso que se faz deles ou em nome deles...
Sabemos que a Ciência é elaborada, direcionada e autolegitimada por uma comunidade científica. Seu início e potencial desenvolvimento sempre estará ligado à determinada cultura, que por sua vez poderá estar subvencionada pelo poder dominante.
Como triste exemplo, remeto-me ao terrível médico Dr.Josef Mengele que levava o título de “cientista” conferido pelo Terceiro Reich e fazia absurdas e mórbidas experiências genéticas com pessoas vivas!!!!
Como conciliar Ciência, Cultura e Poder?
Basicamente, percebemos que, ao longo da História, que as três vertentes têm interesses comuns porém completamente distintos em relação ao seu fim. Várias culturas, foram aniquiladas com respaldo de um “pseudoconhecimento” subserviente ao poder dominante.
Em registros históricos escritos por viajantes, por “colonizadores” ou por “descobridores” ficam evidenciadas as intenções de subjugar e rebaixar a cultura local para um nível inferior. Como se fossem grupos primitivos , indivíduos de segunda categoria até mesmo barbarizando-os.
Atualmente, o poder Capitalista promove uma verdadeira concentração de cientistas trazidos de países periféricos, que são aliciados e financiados formando uma elite “multi-cultural” em seus laboratórios e Centros de Excelência. O que dizer da mega-poderosa MICROSOFT?
Sem nenhum alarmismo, as grandes potências mantêm seus informantes e “espiões” em pontos geográficos e culturais estratégicos, sob a pacata figura de “missionários”, de “ambientalistas” bem intencionados...
Será que sabemos quantos desses “missionários” estão hoje na Amazônia?
Enfim, o conhecimento e o saber científico cuidadosamente produzido é uma forma de entender a evolução sócio-cultural de um agrupamento humano, mas jamais poderá estar à mercê do Poder e da ganância dominadora de regimes totalitários ou capitalistas.
SALETE MICCHELINI

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Como enfrentar o Capitalismo?



O sistema capitalista impõe um modo de vida competitivo, individualista e consumista. A cada dia, novas necessidades são criadas e a população está sempre seduzida a consumir. A satisfação dos desejos que surgem ficam praticamente impossível, pois eles são infindáveis.
É a substituição do SER pelo TER. De um lado está uma minoria poderosa de donos dos meios de produção e do outro a maioria de trabalhadores que dispõem apenas de sua força de trabalho para ser explorado.
Com a crescente “globalização”, o mercado mundial adquiriu uma característica de capitalismo monopolista, onde as grandes empresas monopolizam o mercado ditando as regras da vida financeira e imprimindo suas decisões à população.
A propaganda assumiu um papel importantíssimo, direcionando e manipulando as vontades do consumidor. O supérfluo vira produto de primeira necessidade.
A chamada Indústria Cultural vai modificando os conceitos e valores, que se distanciam cada vez mais da Ética e da Moral.
Com a situação estabelecida, a saída está na resistência cultural, na inclusão social, na retomada da solidariedade, da cooperação com serviços voluntários, na conscientização da voracidade desse modelo capitalista, na contestação dos valores vigentes, na promoção dos valores éticos e morais, na busca pela igualdade social e a implementação do desenvolvimento sustentável.
Aos poucos, os alicerces do padrão civilizatório capitalista vai sendo minado até ser rompido.
Dando lugar para que um novo modelo possa se desenvolver e ser instituído.
SALETE MICCHELINI



Poema: O presente não é imutável
Autor: Bertolt Brecht (1898-1956)


Nós vos pedimos com insistência:
Não digam nunca: “Isso é natural!”
Diante dos acontecimentos de cada dia
Numa época em que reina a confusão
Em que corre sangue
Em que o arbitrário tem força de lei
Em que a humanidade se desumaniza,
Não diga nunca: “Isso é natural!”
Para que nada passe a ser imutável!

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Filósofo medieval: Santo Tomás de Aquino


Impressionou-me a dimensão da obra de Tomás de Aquino, quer seja na sua produtividade, quer seja na sua intencionalidade. Com estratégia e brilhantismo, próprio das mentes privilegiadas soube mesclar as luzes de Aristóteles para clarificar o Cristianismo.
Na concepção de Aristóteles, também adotada por Tomás de Aquino, toda substância corpórea é dualista composta de partes complementares, uma indeterminada e passiva, que é a matéria e outra determinante e ativa que é a forma.
A Ontologia Tomista reside no preceito que o ser compõe-se de ato e potência. Sendo o ato, equivalente à realidade e à perfeição. Potência seria então, a não-realidade e a imperfeição. Somente em DEUS, ato e potência seriam a mesma coisa. Deus é o ato puro, é o ser pleno e completo. Deus é o ser necessário e absoluto, portanto inquestionável, mas com existência racionalmente provável; portanto independente de toda a questão filosófica. Concluímos daí, de acordo com seu ensinamento que à Filosofia cabem os problemas do mundo e à Teologia o conhecimento racional, demonstrado e provado da existência de Deus.
Com relação à alma, entendo que Tomás de Aquino considera haver o princípio da vida contido no ser. No homem existe a alma espiritual, superior e que o transcende. Ela seria imaterial e imortal onde manifestam as atividades do intelecto e da vontade é a alma racional.
Às plantas, atribui-lhes a alma vegetativa (que se alimenta, cresce e se reproduz). Aos animais, a alma sensitiva (que se alimenta, cresce, se reproduz, sente e se move). A alma racional (do homem) faz tudo isso e ainda pode entender e querer, sendo por conseguinte, uma alma superior. Apesar da alma espiritual ser única a cada pessoa e imortal, ela só terá vida plena em um corpo.

SALETE MICCHELINI

Filósofo medieval: Santo Agostinho


Nascido na província romana de Tagaste (África) em 354 d.C., Aureliano Agostinho faleceu em Hipona (Argélia) em 430 d.C aos 66 anos, ficou conhecido como Santo Agostinho.
Desfrutou a vida até completar 32 anos, teve um filho, mas depois se converteu ao Cristianismo, quando conheceu Santo Ambrósio. Nessa época, atravessava uma profunda crise existencial. Professor e estudioso das correntes filosóficas pré-socráticas, retirou delas, alguns eixos que nortearam seus ensinamentos.
Agostinho se influenciou pelo Maniqueísmo persa, quando admite o Dualismo que domina o Universo: o corpo e a alma, a luz e as trevas, o bem e o mal, numa incessante luta e num constante esforço humano para manter-se virtuoso e bom.
Adotou do Ceticismo a insuficiência sensorial humana para a formação de juízos absolutos e corretos, já que o conhecimento sensorial é instável, ilusório e deficiente para se chegar à verdade.
O Neoplatonismo também lhe acrescentou a importância da razão para estabelecer a concepção de verdade pura, eterna e Una; que só é possível no “mundo da idéias”. Será através da elevação da alma numa fusão mística com o divino, que se poderá chegar ao conhecimento verdadeiro.
Assim, Agostinho, organizou seu pensamento, tornou-se cristão, padre, bispo e foi consagrado santo. Escreveu os primeiros textos buscaram um argumento racional para a fé.
“Compreender para crer, crer para compreender”. (Santo Agostinho)

Salete Micchelini

Internet: um bem ou um mal para a criança e o adolescente?



A tecnologia da Internet nascida nos E.U.A., na década de 60, graças aos interesses militares do Pentágono, se transformou numa ferramenta global.
Sua presença era, antes, restrita ao cotidiano de empresas, de meios de comunicação, de órgãos públicos e universidades; agora se expandiu e popularizou.
Já está presente em domicílios, em lan-houses e a cada dia com maior facilidade de acesso aos jovens.
Como todas as invenções revolucionárias, a Internet também provoca reflexões como: Positiva ou Negativa? Bem ou Mal? Benefícios ou Malefícios?
Ainda hoje se discute a influência do cinema, da televisão, dos videogames, dos celulares na vida das crianças e dos adolescentes.
Benefícios? Centenas. Malefícios? Centenas.
O fato concreto é que temos que aprender a lidar com todo esse aparato eletrônico, pois dessa evolução tecnológica não temos como escapar, ou seja, é um caminho sem retorno.
A Internet pode ser um espetacular meio de desenvolvimento de conhecimento intelectual , de pesquisa científica, de diversão e entretenimento, de cultura e informação como também pode ser uma arma de enorme poder de destruição!
Família e escola devem orientar os jovens sobre as vantagens e as desvantagens de estarem conectados à rede. Os adultos mais conscientes dos perigos dessa “faca de dois gumes” devem acompanhar e alertar aos pequenos cidadãos, que estão em fase de formação para os perigos encontrados “on-line”.
Sempre usando o bom senso, mostrando o que podemos tirar de proveito para nossa vida e também o que pode afetar cruelmente a educação e à vida.
Enfim, as inovações tecnológicas estarão sempre acontecendo, cada vez mais o respaldo da família e da escola se fará necessário para encaminhar nossos jovens em sua trajetória para um bom caminho no futuro!
Salete Micchelini


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

"PENSO, LOGO EXISTO" (Descartes)


“Cogito, ergo sum”( Descartes)
Quando utilizamos a nossa faculdade de pensar, estamos existindo. O ato de pensar implica em conhecer, criticamente, a realidade da qual fazemos parte. Acontece que, muitas vezes, desconhecer é mais cômodo, é menos trabalhoso.
A inércia mental é a morte do pensamento, é a não-participação, é o alheamento total à realidade. Pensar leva à ação transformadora que faz a vida se movimentar e fluir... Não-pensar leva à estagnação e à mesmice semelhante à inação da morte.
Muitas pessoas passam toda a sua existência de forma irrefletida ou alienada, isso pode ser chamado de VIDA?
O corpo está vivo é claro, mas o mesmo não pode ser dito para o “pensar”... Quando o “pensar” está morto, uma vida de ação, de movimento, de conhecimento libertador foi desperdiçada.
Só o “pensar” dá sentido à existência!
SALETE MICCHELINI

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O nascimento da Filosofia na pólis grega



O berço grego da Filosofia encontrou todas as condições necessárias para ser seu local de nascimento e desenvolvimento. Isso não descarta que a racionalidade não existia, mas o saber mítico imperava e atendia a quase todos os anseios do povo da época.
A cultura grega era muito desenvolvida em pontos relevantes que até hoje influenciam a vida ocidental e a Mitologia começou a ser insuficiente para explicar novas visões.
Acontece que, uma nova dinâmica social surgiu na vida da população grega. Então, começaram a despertar as primeiras contradições, dúvidas e conflitos entre o pensamento mítico e o pensamento racional; que se aflorava; para seu posterior exercício, fortalecimento e desenvolvimento.
Vieram as incursões marítimas, os gregos com suas embarcações chegaram aos locais nunca antes pisados e onde, supostamente, habitavam os deuses e monstruosidades, mas nada descobriram de diferente ou fabuloso.
Através da observação da natureza, durante as estações do ano, perceberam a repetição de fases e ciclos naturais de chuva, frio, floradas e criaram um calendário; deixando de atribuir aos deuses todas as mudanças e intempéries climáticas.
A necessidade de produção de alimentos, a fabricação de artesanato, de utensílios domésticos, as trocas foram aproximando as famílias e formando cidades movimentadas . Era em praça pública (Ágora) que as pessoas podiam se encontrar, comercializar, discutir idéias , dúvidas e questionamentos sem respostas plausíveis.
Surge a possibilidade de registro do pensamento através da utilização da escrita. Os fenícios chegaram e apresentaram sua escrita, que foi aprimorada e desenvolvida para a escrita alfabética dos gregos.
A vontade coletiva no espaço público dá início à discussão , produção de leis e política. A palavra do cidadão em discurso público se torna um direito de emitir o pensamento com argumento e também de ser contra-argumentado.
Para facilitar o comércio, onde as coisas concretas eram trocadas por semelhança (escambo), passaram a fazer o cálculo de valores semelhantes de coisas diferentes; veio a cunhagem de peças pequenas que representavam os valores: as moedas.
A PÓLIS surge e se consolida como necessidade e expressão da vontade do cidadão. Os fenômenos atribuídos aos deuses, perdem sua base de compreensão e se tornam problemas solucionáveis por meio de observações, de tentativas, de exercício de raciocínio.
“A Filosofia é grega e filha da Pólis.” ( Chatelet ). As colônias gregas Jônia e Magna Grécia viram surgir os primeiros filósofos, os críticos, questionadores e pensadores do saber existente e do saber real.
Os primeiros lampejos da reflexão filosófica eram: descobrir um princípio, uma origem (ackhe) de tal maneira que dele se pudesse concluir, como conseqüências racionais e lógicas, as explicações para a realidade. Esse princípio poderia ser, de um ponto de vista lógico e mental, uma proposição extremamente geral, a partir da qual fosse possível extrair conclusões válidas.
Poderia ser também no campo físico, alguma coisa material que, por força de transformações e mutações dessem origem a todas as coisas e a todos os acontecimentos. Construíram teorias que tentavam explicar racionalmente, ou seja, sem a presença de fator mítico, o Cosmos e toda a realidade existente.
Cada pensador partiu para uma especulação e a fundamentava para o convencimento de sua idéia. Tales de Mileto encontra a ÁGUA como a origem; Anaxímenes atribui ao AR; Demócrito propõe uma partícula- o ÁTOMO; Empédocles estabelece quatro elementos: TERRA, ÁGUA, AR e FOGO. Assim, não há mais unidade de pensamento. É o início da efervescência filosófica, pois a pluralidade de explicações domina, onde antes só havia unanimidade.
As divergências borbulhavam a respeito do princípio de todas as coisas, sem se valer da Mitologia. Por conseguinte, na passagem da fantasia mitológica para o pensamento racional houve uma ruptura quanto à atitude das pessoas subordinadas aos deuses. Enfim, os primeiros questionamentos filosóficos rejeitavam a interferência sagrada para obter uma explicação mais discutida e problematizada, de forma independente e com mais coerência entre razão-natureza. A natureza deixa de ser manipulada pelos deuses para ser objeto de pensamentos abstratos para buscar novos rumos.

Salete Micchelini

FILOSOFIA PARA CRIANÇAS A PARTIR DAS SÉRIES INICIAIS


Se estivermos pensando a Educação como um processo que necessita de estratégias e de metodologias eficazes, faço aqui algumas observações sobre a importância de se incluir no currículo escolar, desde as séries iniciais do Ensino Fundamental, da disciplina “Filosofia”.
São muitas as críticas feitas aos programas e aos currículos de ensino elaborados pelo Sistema. Conteúdos desnecessários, falhas nas seqüências dos conteúdos de uma série para outra, excesso, falta ou distorções de informações, programas desatualizados entre inúmeras outras reclamações são feitas por professores e especialistas que atuam nas escolas.
Percebe-se uma urgência de uma ação transformadora que venha a gerar mais interesse e participação democrática, mais eficiência no pensamento crítico. Talvez esteja na hora de iniciar uma experiência educacional inovadora, que mostre ás crianças a utilidade dos procedimentos filosóficos para se conhecer a realidade que nos cerca.
A valorização da Filosofia como conteúdo, como uma atitude cotidiana e uma forma de desenvolvimento intelectual pode advir da sua inclusão no currículo das séries iniciais do Ensino Fundamental.
Na escola, encontramos um universo de experiências cotidianas, de crenças, de opiniões, de preconceitos e outros tópicos que são propícios e adequados para a reflexão filosófica desde a mais tenra idade.
Quem sabe se colocando a Filosofia, bem mais cedo na vida da criança, como parte integrante das principais áreas das ciências do conhecimento, ela retome seu posto perdido de “Rainha das Ciências”?
Sabemos que a Filosofia existe há mais de 25 séculos. Dela surgiram e, pouco a pouco, se emanciparam, as várias ciências particulares e consagradas, que foram definindo seus objetivos, seus métodos e seus resultados próprios.
Cada ciência, ao se desligar da Filosofia, foi se enobrecendo e agigantando, sendo cada fez mais considerada necessária e útil.
O fato não se repetiu com a Filosofia. A partir do século XIX, a Filosofia já estava limitada como ciência e como meio de conhecimento através da consciência reflexiva (talvez por influências Positivistas e Racionalistas).
Interesses políticos e ideológicos do Estado contribuíram para excluir e desprestigiar alguns conteúdos didáticos e supervalorizar outros, em sua função e benefício.
Atualmente, diante de tanta novidade, tanto progresso e desenvolvimento tecnológico, com a massificação da cultura, a manipulação das idéias, o crescimento da desigualdade social, a elitização do conhecimento as pessoas nunca precisaram tanto refletir cada vez mais cedo sobre sua condição social e histórica.

Vale citar as palavras de Luis Althusser:
“Ora, é através da aprendizagem de alguns saberes práticos (savoir-faire) envolvidos na inculcação massiva da ideologia da classe dominante que são em grande parte reproduzidas as relações de produção de uma formação social capitalista. Isto é, as relações de explorados com exploradores e de exploradores com explorados”

Jean Piaget (1896-1980) que tanto estudou e desvendou as engrenagens do raciocínio e suas diversas etapas, concluiu que a criança tem uma forma própria e ativa de raciocinar e de aprender.
Assim sendo, a criança já poderia ter o contato inicial com a Filosofia entre as fases “Pré-Operatória” e a “Operatória-Concreta”, que são as fases decisivas na construção do raciocínio abstrato.
Uma máxima da teoria piagetiana é que o conhecimento é construído na experiência. Para Piaget, o que permite a construção da autonomia moral na criança é o estabelecimento da cooperação em vez da coação e do respeito mútuo no lugar do respeito imposto através da autoridade.
Dentro da escola, isso significa democratizar as relações para formar sujeitos autônomos, críticos e transformadores. Considerando as conclusões de Piaget, a inclusão da Filosofia nas séries iniciais contribuiria e coincidiria com as etapas onde a potencialidade do pleno desenvolvimento do pensamento abstrato e reflexivo estaria se aflorando.
A Filosofia sempre teve conexões íntimas e reais com as outras ciências, na articulação de pensamento, abrindo campos para novos saberes e novos progressos intelectivos.
Levantemos essa bandeira para a inclusão da Filosofia desde as séries iniciais do Ensino Fundamental em todas as salas de aula do Brasil!
A presença da Filosofia mais cedo na vida da criança e numa etapa de suma importância para a construção e evolução de seu raciocínio anteciparia as competências e habilidades que tanto pregamos como essenciais para o ser humano.
Valores como o respeito mútuo e ao bem comum, direitos e deveres, laços de família e de solidariedade, tolerância e justiça social começariam a ser cultivados e brotariam de forma espontânea.
Dessa forma a escola estaria contribuindo na construção, de verdade, do cidadão que queremos para nós e que desejamos difundir para a ação transformadora da sociedade.
A criança seria conduzida para questionar mais e reproduzir menos. Questionar o que parece óbvio, para adquirir a capacidade de problematizar com abstração, para depois se apropriar reflexivamente da elaboração de uma solução significativa da questão.
Assim sendo, a Filosofia não seria uma disciplina “distante” e “alheia” ao currículo da criança, mas sim uma presença contextualizada no cotidiano escolar, familiar e no entorno social, histórico e cultural dos fundamentais anos da vida da criança.
A Filosofia seria necessária, útil, agradável e produtiva de seres humanos melhores.
SALETE MICHELINI

A FILOSOFIA E A RELIGIÃO


O ser humano e o sagrado caminham lado-a-lado. O homem, ao longo de sua trajetória histórica na Terra, sempre procurou e continuará a procurar uma sustentação para sua existência, para direcionar sua frágil e finita duração real.
Essa existência terrena breve e, às vezes, cheia de sofrimentos, de injustiças, de angústias, leva o homem em busca de algo mais perene, mais duradouro ou eterno.
Dessa incessante busca surgem vários caminhos que nos remetem ao plano das explicações plausíveis para determinado acontecimento em determinado momento histórico. Assim, surgem as manifestações culturais ligando o humano ao divino, o real com o irreal, o mundano ao sagrado.
A Filosofia se interessa por todas as questões relativas à cultura do ser humano. Os saberes humanos, suas verdades, seus procedimentos, suas práticas tornam-se questões de interesse filosófico.
O ser humano talvez seja, dentre todas as espécies, a mais fraca e indefesa. Impossibilitado de sobreviver isoladamente, o homem reúne-se em grupos. Portanto, a diversidade de grupos sociais e culturais faz surgir uma diversidade de crenças e fé religiosas.
Essa força religiosa atua nos grupos humanos de forma tão poderosa que pode conduzir totalmente a vida das pessoas.
Durkheim, em um de seus brilhantes legados sobre esse instigante assunto diz:
“...existe algo de eterno na religião, que está destinado a sobreviver a todos os símbolos particulares nos quais o pensamento religioso, sucessivamente, se envolveu. Não pode existir uma sociedade que não sinta necessidade de manter e reafirmar a intervalos, os sentimentos coletivos e idéias coletivas que constituem sua unidade e personalidade.”
A Filosofia então, através do pensamento crítico numa atitude reflexiva indaga as razões, as causas e efeitos, enfim, o sentido dessas ações religiosas, questionando qual é a importância, a finalidade, a utilidade delas na vida do ser humano.

Salete Micchelini

O comportamento agressivo chamado BULLYING




Cientistas, antropólogos, sociólogos, psicólogos estudam alguns fatores que tentam explicar o comportamento humano. Eles incluem caracteres genéticos e hereditários, os componentes da evolução, de psicologia comparativa e dos aspectos ambientais que provocam determinadas ações e reações do comportamento humano.
Alguns questionamentos surgem e provocam interrogações que incomodam tanto quanto o mal estar de não saber determinar com segurança sua origem e sua solução.
Sabe-se que, a freqüência de comportamentos agressivos tem aumentado, a criminalidade assusta e surpreende cidadãos, cientistas e especialista.
O pior é que o cidadão impregnado de uma ansiedade busca uma proteção que parece alimentar a violência. A pessoa se arma, se refugia numa espécie de fortaleza que mais se assemelha a uma prisão.
Segundo o filósofo Jean-Paul Sartre, a violência sempre se faz passar por uma resposta à violência alheia.
Afinal, violentos são os outros?
Alguém nasce violento ou é o ambiente que favorece o aparecimento de atos agressivos e violentos?
Preocupam-me os atos agressivos em faixas etárias cada vez mais baixas, atos agressivos estão também presentes na esfera escolar. Como um ato agressivo pode surgir entre jovens estudantes, contra seu semelhante, de forma gratuita?
Assim, farei algumas observações e comentários a respeito do comportamento agressivo na escola ou seu entorno, que foi denominado de BULLYING.
Bullying é um termo inglês para um comportamento agressivo que vem acontecendo em algumas escolas ou em seus arredores. Apesar de, ser hoje detectado, em quase todos os países do mundo, o pioneiro nos estudos sobre o assunto foi o psicólogo norueguês Dan Olweus, no início dos anos 70, na Inglaterra, onde ele vivia.
Foi justamente um fato chocante da crônica policial inglesa, envolvendo jovens estudantes, que chamou a atenção do Dr. Dan Olweus que, sistematicamente, passou a estudar e registrar esses fenômenos ocorridos em escolas.
Segundo Dr. Dan Olweus, o Bullying teve a sua primeira definição que seria nos seguintes princípios: um(a) jovem estudante é vitimizado(a) e abusado(a) através de ações físicas, ações verbais diretas ou indiretas por parte de um ou mais colegas, dentro ou próximo do estabelecimento de ensino. O fato pode ser ou não presenciado pelos demais colegas, que ficam impotentes diante da situação e, quase sempre fica oculto, sem ser levado ao conhecimento superior.
Tais comportamentos visam intimidar, humilhar, rechaçar , machucar ou constranger um(a) colega, que é escolhido(a) de forma aleatória ou por uma característica própria. As vítimas tanto podem ser alunos de bom comportamento, alunos novatos, alunos com alguma deficiência física, alunos com auto-estima baixa, alunos desajustados ou até alunos que se sobressaiam na capacidade de aprendizagem. Todos são, potencialmente, uma vítima para um ataque de Bullying.
Formas verbais intimidativas e humilhantes de Bullying, são as mais comuns, o que não quer dizer que sejam menos danosas. Tomemos o exemplo de um aluno gordinho, um aluno com orelhas maiores, um aluno que usa óculos, com dentes tortos, assim por diante, as agressões orais ou escritas o marcarão para sempre de forma profunda, prejudicando toda a sua vida psicológica.
O que faz com que colegas se tornem “valentões” e se voltem contra membros do seu próprio grupo?
Que fatores estão atuando nesse tipo de desvio precoce de comportamento maldoso e injustificado?A ciência está em alerta e voltada para responder a essas questões. Em recente estudo publicado pelo neurocientista Alessandro Bartolomucci, do Instituto de Nacional de Pesquisa da Neurociência de Roma, escreveu:
“Nos animais, a agressividade é tipicamente medida pela freqüência dos ataques dirigidos a um intruso que ultrapasse os limites do seu território. Mas, é uma medida indireta, porque a agressão é um comportamento, enquanto a agressividade é um estado motivacional, um conjunto das alterações neuroquímicas e fisiológicas que estão na base da agressão e da violência.”
O fato é que, antropólogos, sociólogos, psicólogos, filósofos e demais cientistas nunca foram tão necessários para desvendar as raízes da agressividade e da violência.
Na tentativa de explicar alguns tipos de violência, alguns cientistas têm sido levados a olhar também para fora do indivíduo, para o ambiente que o rodeia, ou seja, as cidades.
Ali, a conjunção de fatores aparentemente ligados à questão é infindável. Há problemas como: má distribuição de renda, o desemprego, o narcotráfico, o despreparo policial, a impunidade, a corrupção, o desgoverno e tantos outros.
Mas, mesmo sob todas essas influências alguns indivíduos não se tornam violentos e agressivos ...e outros nunca se tornam...
Esses indivíduos pacíficos também deveriam ser estudados. O caminho da moderação, da atitude sensata, da posição conciliatória faz parte da capacidade de sentimentos humanos. Por que não estudá-lo também? Se houver uma possibilidade de ensina-lo, quer seja através de técnicas e treinamentos ou mesmo de tratamento, tudo poderá nos valer.
A grande maioria da comunidade científica concorda com uma interação entre tendências genéticas e influências ambientais controlam o comportamento humano.

Nas palavras do neuropsiquiatra da Universidade de Massachusetts (EUA), Dr. Craig Ferris percebe-se a ironia da incerteza:
“O comportamento é 100% hereditário e 100% ambiental.”
O antropólogo inglês Dr.Richard Wrangham, em seu livro “O Macho Demoníaco” (1998, Editora Objetiva) após décadas de observação do comportamento de nossos “primos” genéticos, os chimpanzés, demonstra que eles fazem uso de agressões gratuitas e com requintes cruéis. Os chimpanzés, além de terem um grau de inteligência e sensibilidade cometem atitudes traiçoeiras, inexplicáveis e extremamente perversas, sem motivo algum.
A ciência tem feito a sua parte, a família e os educadores devem admitir a questão e encará-la de maneira cuidadosa e atenta, principalmente, por estarmos dentro da escola e próximos ao estranho comportamento.


SALETE MICCHELINI